Solto na Cidade entrevista CÉSAR AMORIM

Itaercio Porpino
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Solto · Natal, RN
27/1/2009 · 58 · 0
 

Humor com cérebro
Sex, 23 de Janeiro de 2009 19:59
ENTREVISTA COM CÉSAR AMORIM - ATOR E DIRETOR DE TEATRO
TEXTO E FOTOS: ITAÉRCIO PORPINO


Por inúmeros motivos, o monólogo “Não matei, mas sei quem fuiâ€, que estréia nesta sexta-feira (23) no Teatro de Cultura Popular (TCP), é muito significativo para o dramaturgo César Amorim, potiguar radicado há sete anos no Rio de Janeiro. Primeiro, porque ele escreveu o texto para se dar de presente pelos 20 anos de teatro e 40 de idade. Depois, porque com o espetáculo conseguiu encontrar o César que era em Natal antes de mudar-se para o Rio. Isso, sem falar no desafio que é fazer uma peça sem mais ninguém no palco. “Não matei, mas sei quem fui†é seu primeiro monólogo. Para terminar, o espetáculo diz muito sobre o ator e sobre a psicologia humana em geral. Com direção de Diego Molina, outro potiguar radicado no Rio, “Não matei...†é uma comédia para refletir e rir. Bem ao estilo César Amorim. Confira a entrevista:


Solto na Cidade: Você nunca havia feito monólogo. Como está sendo a experiência?

César Amorim: Está sendo um grande desafio. Monólogo é muito mais difícil, sobretudo esse, em que eu falo durante uma hora e faço sete personagens. São sete lados do mesmo cara. É um repórter que dialoga com seus vários lados. Então, tem momentos em que são cinco personagens em cena, um falando com o outro. Enlouquecedor. É preciso ter um controle absoluto. Um controle vocal e corporal. Se o ator não estiver bem preparado fisicamente e vocalmente, não consegue fazer. E tem que estar com o texto na ponta da língua. A coisa tem que ser visceral. Não dá pra pensar. E nesse monólogo, especificamente, eu não tenho tempo de pensar.


Solto: Para o público, a peça é clara, mesmo com essa confusão de personagens em cena?

CA: Claríssima. E isso é muito legal. Para eu reunir a equipe técnica lá no Rio, a gente fez leitura dramática. Juntei o pessoal em casa e li a peça. Foi suficiente. Escutaram a peça, entenderam tudo, riram pra cacete e disseram que queriam fazer. Apresentamos o monólogo em novembro e dezembro no Teatro Sérgio Porto, que é municipal. Foi muito legal porque é muito difícil conseguir espaço nos teatros do Rio. Eles são muito caros e ainda assim é difícil conseguir pauta. Restam, então, os teatros da prefeitura, mas esses são requisitadíssimos. Você só consegue com concorrência. Tem que mandar projeto, coisa e tal. Eram 300 projetos e a gente ficou entre os sete. Entramos na pauta de novos dramaturgos, porque o texto é meu também. Eu escrevi para mim. Estou fazendo 20 anos de carreira e 40 de idade. Então queria me dar um presente. E chega um momento em que você tem que se mostrar mesmo. Éu fiz muito espetáculo no Rio, mas não era a minha verdade. Eu queria encontrar o César que eu era aqui em Natal antes de ir para o Rio de Janeiro. Fazer as coisas que eu fazia aqui. Porque aqui as coisas tinham a minha cara, todos os espetáculos que eu fiz aqui tinham a minha cara. Aqui, eu era produtor de espetáculo, diretor, autor e ator. Tinha controle absoluto...



Solto: No Rio é mais difícil?

CA: É tudo mais difícil. Mas mesmo assim eu fiz parte de uma renomada companhia de teatro, a Companhia de Teatro Artesanal, que acabou me dando um espaço muito bom. Entrei nela assim que cheguei ao Rio, em 2002, e escrevi e dirigi quatro espetáculos. Neles, eu consegui falar algumas coisas minhas, mas não eram espetáculos em cartaz, e sim trabalhos com teor educativo vendidos para o SESC.


Solto: E seu processo de elaboração do texto, como é?

CA: Eu tenho uma grande preocupação com a dramaturgia. Acho que o Brasil está carecendo muito de bons dramaturgos. Não estou dizendo que sou um bom dramaturgo, mas me esforço para. Eu escrevo há muito tempo. Ter trabalhado como professor de teatro do colégio Marista, em Natal, escrevendo para os alunos foi um grande aprendizado para mim. Tive que trabalhar sob pressão, pois era obrigado a escrever dois textos por ano. E construía personagens que não fossem vazios, sem conteúdo. Para mim, o personagem precisa ter motivo para estar em cena. Personagem só pra fazer graça não tem graça. Não existe.


Solto: Pouca gente deve saber que você já atuou também em televisão, em novelas da Globo, inclusive. Fale um pouco sobre isso.

CA: Desde que estou lá no Rio sempre fiz TV. Faço participações. A novela Duas Caras, da Globo, foi a primeira novela inteira que eu fiz. Eu fazia um dos anões do Juvenal Antena, um dos capangas do Antônio Fagundes, e foi muito legal porque eu não sou muito de bater em porta de produtor. Não consigo fazer isso. Sou muito tímido para essas coisas. Mas aí a produtora de elenco me ligou para fazer teste para compor o elenco de apoio da novela e eu fui. Cheguei no dia do teste achando que ia ter umas 50 pessoas, mas tinha umas 500. E só gente linda. É o Fashion Rio? Pensei. E eu baixinho, nordestino, achei que não ia passar. Então relaxei. Pensei: ah, vou curtir isso aqui.


Solto: Como era o teste?

CA: Entravam de 15 em 15 atores e ficavam andando em um retângulo imenso num estúdio, com uma câmera acompanhando. A pessoa em quem a câmera parasse tinha que interpretar um personagem qualquer, de improviso, dentro do universo da favela. Eu não sei o que disse até hoje, mas agradei muito. “Você foi muito bem, fez um nordestino ótimoâ€, disseram. E eu respondi que era nordestino. A produtora informou que ligaria dentro de dez dias. Passaram-se 10, 15, 30 e nada. Em 2007, quando eu estava em Natal, me ligaram dizendo que eu tinha passado e que não era para o elenco de apoio, e sim para o elenco secundário, que é melhor. É quase elenco principal. Nós tínhamos personagens com nome e regalias que o elenco de apoio não tem. O texto chegava a minha casa, tinha o roteiro, eu sabia os dias que tinha que gravar... Não precisava ir sempre. O elenco de apoio, coitado, todos os dias estava ali gravando. Ficava de plantão, não podia fazer mais nada na vida. Eu gravava três dias por semana e o resto da semana ficava livre, ganhando um ótimo salário e aparecendo na televisão. E experienciando o contato com Antônio Fagundes, com Lázaro Ramos... Foi muito bom. Depois dessa novela, eu já fiz participação em A Favorita, Beleza Pura, Negócio da China e também em Caminho das Ãndias, mais nova novela das 8.


Solto: Após o monólogo, há algum projeto em vista?

CA: Não, ainda não. Calma. Eu estou escrevendo um texto com o qual ganhei prêmio no circuito carioca de esquetes. Ele se chama “Imprevisível euâ€. Estou transformando esse esquete em peça para quatro atores, mas é um projeto para depois. Ainda vou inscrever em lei de incentivo. O monólogo é a menina dos olhos. Estou trabalhando nele arduamente. Acho que é um trabalho que eu quero ir fundo nele. Sei que sou suspeitíssimo para falar, mas esse é um trabalho muito legal. A direção de Diego Molina é uma graça. E é um espetáculo muito simples, em que o trabalho de ator é valorizado ao máximo. Só sou eu em cena o tempo todo sentado numa privada. Então é um trabalho de corpo muito grande, porque cada personagem tem uma partitura corporal e uma partitura vocal. Tem o lado femininbo, o lado nordestino, o lado gay, o lado psicopata, o lado adolescente, o lado detetive e tem o eu mesmo, que é esse cara que se vê cercado pelos personagens.



Solto: E do que o monólogo trata?

CA: O grande tema da peça é o preconceito. Preconceito que temos com nós mesmos e em relação à sociedade. O personagem é um nordestino que renega ser nordestino. É gay e renega ser gay. Mas a peça é muito mais que isso. Ele renega esses lados porque quer subir na vida e acha que para ser âncora de jornal no Sudeste do país – o que é fato – precisa em primeiro lugar perder o sotaque nordestino. Mas chega um momento em que esses lados vêm tomar satisfação com ele. “Por que você me renegou. Eu existo sim, e estou aqui para tomar o que é meu de direito. Também quero meu lugar no mundo. Você não pode renegar sua raiz. Você é nordestinoâ€. E ele também vive dizendo que o lado feminino dele é lésbico, mas aí o lado feminino aparece e diz que não é lésbico. “Eu não gosto de mulher; gosto de homem". E ele fica enlouquecido com isso. É aí que acontece o crime. Por isso que o nome é “Não matei... ". Ele está num quarto de motel com a editora-chefe dele e não consegue transar com ela, e aí termina por matá-la. Ele sabe que foi ele que matou, mas não sabe qual lado matou. A peça é uma investigação com os lados para saber quem matou. A peça transita em dois níveis muito interessantes. O personagem empreende uma jornada de autoconhecimento e no final da peça descobre quem realmente é. Ao mesmo tempo em que o personagem vai investigando quem é o assassino, porque matou e o motivo dessa morte, ele se descobre como pessoa. Isso é muito interessante ver. Como vai terminar, ninguém sabe.

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